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ESPECIAL | A solidariedade com o tempero do amor


Em 2015, quando iniciou sua empreitada como vendedor de "quentinhas", Adenilson levava um total de  40 marmitas, cujo custo unitário saía a R$ 5,00,  já  descontadas despesas como gás, água, luz e a gasolina da moto que usava como transporte, e vendia por R$ 10,00 (mesmo preço de hoje). “Vendia por volta de 30 e doava 10. Só  tirava mesmo o mínimo para me manter e pagar o aluguel.” 

Movido por um sentimento de indignação, começou ele mesmo a fazer a comida das 100 marmitas que, até então, levava diariamente ao ambulatório 1 do HUB, antes do surgimento da pandemia do novo coronavírus. 

Ali vendia para quem podia pagar e doava para quem não podia, pois muitos daqueles pacientes têm apenas o dinheiro contado da condução da volta para casa.

           Foi assim que o Adenilson se tornou conhecido nas proximidades do hospital. Graças ao trabalho ambulante associado à filantropia. Ele conta que quando começou a mexer com marmitas não contou com a ajuda ou patrocínio de ninguém. 

Um paciente dá a dica para o outro: – Vai no Irmão, ali no ambulatório 1 e ele vai te abençoar com a comida!

 O Irmão”, de fato, está lá na área do estacionamento do ambulatório 1 do Hospital Universitário de Brasília (HUB). “Irmão” é o apelido do vendedor ambulante Adenilson da Silva Cruz. Seria um engano achar que também não precise vender suas marmitas para quitar as contas do mês. Desde 2015, decidiu ajudar quem não tem como pagar pela comida.

 Adenilson se compadece com aquelas pessoas que vêm de fora e ficam perambulando pelos arredores do hospital, sem condição de pagarem  por um prato de comida. Isso lhe dói no “fundo da alma”, como se tivesse acabado de levar um soco no estômago. 

A fome também parece doer muito no estômago daqueles desvalidos. “Já senti na pele. É triste você querer e não ter o que comer”, diz enquanto recorda dos seis meses de privação que passou logo que saiu do convento depois de concluir o ensino fundamental, na cidade de Caconde, interior de São Paulo, ainda na adolescência. Nessa época, foi morar com a mãe que não tinha como lhe oferecer o básico e para ajudar no orçamento de casa e garantir a sobrevivência, fez bicos como lavador de carro, engraxate e ajudante de feira.   

MISSÃO

Cansado de ver essas cenas se repetirem todos os dias, embora com protagonistas diferentes, o paulista de 42 anos, morador do Guará 1, há cinco anos tomou a iniciativa de ajudar aquelas pessoas que vêm tentar se consultar no Hospital Universitário de Brasília. E são muitas, vindas geralmente de cidades do Entorno de Brasília, como Valparaíso de Goiás (GO) e Luziânia (GO). Outras vêm de localidades mais distantes, de estados como Minas e Bahia. Não raro, levam muitas horas para chegar ao hospital e depois passam pela maratona da longa espera, envolvidas apenas por uma cadeira e pela frieza do corredor de hospital. 

Logo no início da pandemia o voluntário percebeu que dias bem sombrios estavam por vir. “No meio daquela noite, do mês de março de 2020, que se alongava pela preocupação e pela insônia, acabei dormindo vencido pelo cansaço. De repente, me vi no chão, depois do susto de ter caído da rede, que sem explicação arrebentou. E foi naquele exato momento que me veio uma luz, algo muito forte me dizendo o que eu deveria fazer para ajudar tantos irmãos necessitados que, com toda certeza,  apareceriam na pandemia.” 

O Irmão faz a doação das marmitas durante a pandemia para as pessoas em situação de rua e também para as que ficaram desempregadas, da noite para o dia, como efeito da crise econômica trazida a reboque pelo novo coronavírus.  

Adenilson sabia que só a intenção não o levaria muito longe em seus planos de voluntário. Lembrou-se então de um empresário amigo, dono de supermercado, que já o havia ajudado em certa ocasião, com doação de alimentos para as marmitas, quando passou por um aperto financeiro. O empresário Gilmar Pereira de 52 anos, morador de Taguatinga, se prontificou de imediato a ajudá-lo. O empresário diz que o voluntário é daquele tipo raro de pessoa que é capaz de tirar da própria boca, para doar a quem pareça precisar bem mais do que ele. Para o empresário, ele é um abnegado, no sentido pleno da palavra. “Ele se doa por inteiro, sem medir esforços. O Adenilson não doa só marmitas, ele vai muito além disso. Ele doa principalmente amor, o amor ao próximo”, observa Gilmar, sem esconder a admiração pelo amigo. 

Para o “Irmão”, que se diz cristão, por detrás do simples ato de doar a comida, existe uma força espiritual muito grande e junto dessa força existe uma fé. E ele acredita plenamente que ao possibilitar aquelas pessoas de comerem uma comida boa estará resgatando nelas a auto estima, para que elas comecem a se sentir gente de novo. 

Em 2018, bem antes da pandemia, quando Adenilson vendia e doava marmitas no estacionamento do HUB. Nessa época, ele já idealizava criar o Instituto Adenilson Cruz. Entidade sem fim lucrativo, voltada, a princípio, para as pessoas que vinham de diversas partes do Entorno e que padeciam por longos horas nas filas dos hospitais, sem terem o que comer.

 Mas apenas em dezembro de 2021 ele conseguiu concretizar o seu sonho, com a criação do Instituto Adenilson Cruz. Algo que idealizou antes até da pandemia. De acordo com o Irmão, a principal finalidade do instituto é oferecer a pessoas em situação de rua a chance de aprenderem um ofício. Além da marmita, estaria dando a elas a oportunidade de se sentirem úteis e valorizadas como seres humanos. 

Segundo ele, esse instituto teria parceria com empresários de diferentes segmentos de Brasília. Algumas dessas parcerias seriam com uma empresária da área de doces para festas, outro da área de bolos, nutricionistas que predispõem a ensinarem o ofício de cozinhar, profissionais de salão de beleza que lhes ensinariam as técnicas do corte de  cabelo e barba, dentre outras oficinas profissionalizantes. Criadas com o intuito de formá-los em um determinado ofício ou profissão. Segundo o voluntário, o objetivo principal é poder resgatar essa gente, dando-lhes a chance de se tornarem verdadeiramente cidadãos.

Adenilson assegura que “é muito fácil amar aquela pessoa que chegou ali toda arrumada, cheirosa. Agora outra coisa bem diferente é você conseguir enxergar aquele irmão que está ali jogado na sarjeta, com feridas, maltrapilho, mal cheiroso. O foco da minha missão como voluntário é cuidar daquela ovelha, tratar a ferida dela. Essa é a verdadeira obra de Deus. A fé sem a obra é morta.”

Aliás, para o “Irmão”, “o Covid-19 veio para mostrar pro ser humano que não basta a pessoa só ir pra igreja e ficar lá. Servir a Deus é antes de mais nada colocar a mão no arado. É agir”.

Como ele fez na noite de Natal, em 2021, quando começou a distribuir marmitas com sobremesas e cestas básicas, além de roupas e alguns presentes doados às crianças por uma loja de brinquedos. Iniciou sua jornada natalina na noite do dia 24 e só terminou no fim da tarde do dia 25. Quando entregou a última marmita, do total das 1500 distribuídas. Para ele, aquela ação não teve preço. Relata: “foi um dos momentos mais gratificantes da minha vida, nessa jornada que começou em março de 2020”. As 400 marmitas diárias são feitas pelo próprio Adenilson, com a ajuda de alguns poucos ajudantes, na cozinha industrial improvisada nos fundos de sua casa, na QE1, conjunto H, casa 75 (fundos), no Guará 1.      

 No início da pandemia, Adenilson começou a mobilizar suas doações usando basicamente as redes sociais  Facebook, Instagram e Whatsapp, sendo essa última a mais eficaz. Por lá, direcionava suas mensagens, dispondo de grupos que totalizavam cerca de 1.200 contatos. Por esses canais, pedia doações para distribuição de marmitas.

O trabalho de divulgação de sua obra social é articulado em parceria principalmente com o empresário Gilmar, além de empresários do ramo de supermercado e outros, como revendedora de veículos, fabricantes de embalagens, dentre outros, que além de fazerem doações tanto em alimentos e cestas básicas, ou por meio de depósito em conta. Além disso, “os colaboradores vão repassando aos grupos de amigos e esses repassam para outros grupos de amigos, formando assim uma rede do bem”, na definição do “Irmão”.

Formada essa extensa rede de colaboradores, muitos depositam a quantia que podem nas contas divulgadas pelo Irmão e outras doam mantimentos. No site do Institulo constam os principais colaboradoores, pessoas jurídicas.

Ambas as modalidades são de extrema importância. Essas doações se materializam na comida feita com tanto amor pelo Irmão. 

“Isso não tem preço que pague. Sou grato a quem contribui e acredita no alcance dessa missão. E sou ainda mais grato, por doar, além da comida que essas criaturas tanto necessitam, a atenção e o amor que talvez  alimente até mais do que a comida, que vai saciar só o corpo.”

Como sua prioridade é mesmo o próximo, Adenilson vai deixando suas contas em atraso, O aluguel o dono do imóvel deu uma trégua de 2 meses por causa da pandemia, luz e água vai protelando o quanto pode, e muitas vezes paga só a multa para não serem cortadas. Até a pensão alimentícia de duas filhas menores ele costuma pagar com certo atraso, com ajuda do auxílio emergencial concedido pelo governo a quem antes da pandemia trabalhava na informalidade.    

DISTRIBUIÇÃO

Atualmente, o Irmão costuma doar em média 100 marmitas diárias  na Praça do Relógio, no centro de Taguatinga. Outras tantas ele distribui em pontos como Setor Comercial Sul, Parque da Cidade, na rodoviária do Plano, na Asa Norte, atrás da Casa do Ceará. No setor Noroeste, ele distribui para os índios e para os catadores de reciclagem. Entrega também para moradores em situação de rua que ficam no SOF Norte. Distribui as marmitas também nas proximidades do HRT em Taguatinga e na região do POP, no Setor de Indústrias. Em alguns pontos da Ceilândia, na Avenida Elmo Serejo e em Samambaia. O Irmão distribui ainda para moradores que se abrigam embaixo de viadutos do metrô e na área conhecida por Santa Luzia, na Estrutural e na Vila Dimas, situada próximo à estação do metrô no Pistão Sul.

 No total, são distribuídas, pessoalmente por ele, diariamente, por volta de 400 marmitas. Além das marmitas, ele muitas vezes ainda distribui cestas básicas, que recebe de empresários do ramo de supermercado e colaboradores de outros ramos outros e de pessoas físicas que fazem suas doações via Pix.

Ele transporta a comida em um espaçoso utilitário antigo. Que volta e meia precisa de algum tipo de manutenção, devido à extensa quilometragem que percorre diariamente. E quando o veículo resolve deixá-lo na mão, recorre a alguma parceiro que lhe empresta bondosamente uma viatura, para que seu trabalho de entrega não se interrompa naquele dia.

Hoje, o quantitativo de 400 marmitas diárias só se tornou possível graças a cozinha industrial que o empresário Roberto Batata, com a ajuda de outros empresários do Núcleo Bandeirante, doou ao “Irmão”, no mês de abril. A entrega da cozinha foi um momento de indescritível emoção para o voluntário e rendeu até matéria em um telejornal local. 

Para o amigo e empresário Gilmar, o Adenilson simboliza a capacidade de doar não só marmitas, mas de se doar por inteiro ao próximo. Já o “Irmão”, que todos os dias vai “almoçar” por volta das 19h, considera que não faz nada de extraordinário. Vê “apenas” como uma missão de vida, algo natural, espontâneo: “O verdadeiro tesouro é fazer a diferença na vida das pessoas."

●       Portal na Internet:  institutoadenilsoncruz.org.br
●       E-mail:  instituto.adenilsoncruz@gmail.com




Por Paulo Bergamaschi

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